Bob Marley
O mundo do qual vem Bob Marley, o Terceiro Mundo segundo os filósofos da política, é o da lei do cão: Trenchtown, uma massa caótica de favelas, palafitas e passagenzinhas suspeitas misturadas com a selva, bem na beira do abismo do século XX. Sua história de vida tem os motivos mais terríveis e característicos do século: a obscenidade da fartura e da miséria convivendo juntas e só separadas pelas armas.
"Uma coisa boa sobre a música/Quando ela te atinge, você não sente dor", canta Bob em
Trenchtown Rock.
O extraordinário trabalho de Marley abarca toda história da música moderna jamaicana, do ska ao reggae, passando pelo rock. Mas ele nunca perdeu a visão emocional do centro de sua arte — sua gente, os sofredores de Trenchtown, da grande Kingston, dos guetos de todo o mundo. Eles colocaram sua fé e esperança nele, e ele não os decepcionou. Canções do final da carreira como
Survival, Zimbabwe e Coming In from the Cold são tão engajadas como aquelas feitas no início.
"É algo muito sério, não é diversão", já disse Marley sobre sua música.
"Você diverte pessoas que estão satisfeitas. Pessoas que têm fome não conseguem se divertir — ou pessoas que têm medo. Você não consegue divertir um homem sem comida".
Legado
Ninguém no rock'n'roll deixou um legado musical que
importa mais ou que importa de forma tão fundamental. Ainda assim há relutância em alguns lugares de se aceitar a música de Marley e o reggae em geral como
parte do rock'n'roll. Por outro lado, os mú- sicos do reggae têm uma relutância aceitável em se identificar com a parada da fama do rock'n'roll. Memphis e New Orleans criaram e sustentaram suas próprias e distintas tradições do rockWroll, e assim fez a Jamaica. Os processos que moldaram essas músicas são, de fato, quase idênticos.
A maneira como eles agiram define o próprio rock. Navios chegaram trazendo escravos da África, trazendo música. Num clima de opressão brutal, a música ficou mais forte, assumindo a importância que teve na África como base social e física de uma cultura. Como na África, a ênfase está nos ritmos, e os ritmos têm uma história a contar — geralmente literal e seguindo um padrão oral — e um trabalho a fazer. Eles juntam as pessoas, fazem com que elas participem e são mediadores entre o indivíduo, a comunidade e o mundo além do mundo, o mundo dos espíritos. Com o avanço da cultura e a decadência da escravidão, os fundamentos rítmicos começam a ultrapassar as funções meramente rituais.
Essa foi a fonte de Robert Nesta Marley, nascido dia 6 de fevereiro de 1945, na região de St. Ann's Parish, filho da camponesa Cedella Booker, de 19 anos, e do capitão Norval Sinclair Marley. O capitão se casou com Cedella e a abandonou. Bob cresceu numa região rural onde os valores ainda eram os africanos. Muito antes de abraçar o rastafarianismo como filosofia espiritual e de vida, ele já era íntimo dos mistérios mais profundos de sua cultura. Quando adolescente, se mudou para Kingston, e a música da Jamaica entrava num período de expansão sem precedentes. Marley não passou muito tempo assistindo aos outros.
Músico precoce e com um estilo vocal distinto, começou a gravar em 1962. Parecia nervoso, fora de tom, bem adolescente na sua estreia, o ska ]udge Not. Mas ele já usava imagens bíblicas em suas letras originais que tinham uma importância tanto espiritual como moral. "Enquanto você fala de mimIAlguém está julgando você". Na época, ele
se juntou a Neville Bunny Livingston, depois apelidado Bunny Wailer, seu amigo de infância, e Peter Mdntosh, ou Peter Tosh. Eles escolheram um nome para o grupo que falava de suas próprias origens: os Wailers, ou gemedores, porque as pessoas que nascem no gueto nascem sofrendo, nascem gemendo. Lei do cão: esta era a realidade da vida no gueto e na cena musical de Kingston. Os produtores controlavam tudo. Cansados da ladroagem, os Wailers tomaram conta do sistema e, em 1966, inauguraram seu próprio selo, o Wail' M'Soul'M'. "Todo mundo cjue lida com música caribenha rouba.'" As primeiras gravações do trio pelo selo são clássicos: Mellow Mood, Bend Down Low e Thank You Lord. Os Wailers trabalharam nesta época com Lee Perry e encontraram os irmãos Barrett, Carly, baterista, e Aston, baixista. Com eles, fizeram uma nova e inteiramente inovadora paisagem musical. Marley era um compositor de classe e os Wailers-Barretts-Perry formavam um time capaz de criar um ambiente único para cada uma das jóias de Marley.
Lei do cão: eles ainda moravam em Trenchtown, abaixo da linha de pobreza. Nunca ouviram suas músicas nas rádios da Jamaica. "É porque a música mostra a situação real da Jamaica. Algumas pessoas não gostam de ouvir a verdade". Fora do país, então, eram tão desconhecidos quanto o próprio reggae. Foi uando conseguiram ir para a
Inglaterra, imaginando contrato com uma gravadora. Fizeram fitas de demonstração e acordaram, num belo dia, sozinhos, com frio e fome. As mesmas pessoas que os levaram até lá os haviam abandonados sem um tostão.
Catch a Fire
Foi quando apareceu Chris Blackwell, um branco jamaicano que havia promovido artistas de seu país pela Island Records. Ele acreditava que o reggae podia conquistar um grande público e deu aos Wailers o dinheiro suficiente para gravar um álbum. Com o lançamento de Catch a Fire, a pressão começou. Depois de uma turnê pêlos Estados Unidos correndo milhares de quilômetros para pequenas plateias que não os compreendiam, Wailer e Tosh decidiram abandonar a parceria. Marley se uniu, então, ao I-Threes (Rita Marley, Mareia Griffiths e Judy Mowatt) para completar os vocais da banda e continuou em turnê. Ele era um homem com uma missão. "D"us me enviou para a Terra. Ele me enviou para fazer algo e ninguém pode me parar. Se Deus quiser, então paro. O homem, não." Mais brutal que sua agenda era a realidade da sociedade da Jamaica, que, da metade para o final da década de 70, parecia estar se partindo em duas.
Os dois partidos políticos do país empregaram gangues de homens do gueto para acertar as diferenças e, apesar de as classes dominantes da Jamaica ignorarem os rastafaris, que criticavam a sociedade sem querer tomar parte nela, eles queriam cooptar Marley. Ele achou melhor se relacionar bem com políticos e pistoleiros dos dois lados e as tentativas de manipulá-lo para conseguir apoio político fracassavam. Em 1976, no entanto, representantes do partido do governo persuadiram Marley a fazer um show apolítico em Kingston, um pedido de paz entre as facções do gueto. Duas noites antes da apresentação, um grupo de atiradores invadiu a casa de Marley. Por milagre, ninguém morreu, embora o artista e vários colegas tenham sido feridos.
Mostrando uma coragem fora do comum, Marley honrou sua promessa de cantar no dia marcado. Mostrando bom senso, ele deixou o país no dia seguinte e não voltou por um ano. Manteve-se fiel, porém, à sua música e somente foi parado pelo câncer que o matou, em 11 de maio de 1981. Teria desenvolvido a doença após um ferimento não tratado durante jogo de futebol. A beleza da música de Marley sobrevive e reside no fato de que, embora tenha um significado especial para os sofredores do mundo, ela fala para qualquer um que tenha o coração aberto. Os ritmos estão próximos das batidas do coração, a voz fala uma linguagem que o espírito entende. E, sim, quando ela te atinge,